11 de dezembro de 2013

Desconheço os caminhos.



Um matagal cresce em mim de maneira inesperada, como o mofo que consome qualquer coisa deixada livremente aos insetos, ao ar. Rosas também nascem desse matagal, pássaros fazem ninhos dentro de mim. Aos poucos, me tornarei uma mata densa, úmida e fria. Crescerei por todos os lados, galhas e flores me cobrirão até eu ser só uma floresta de nome desconhecido. Perdida no tempo. Pois tenho uma alma meio dama da noite, que brilha no silêncio, que sorri pra tristeza, que faz festa com o neon, que se deita com o mar como deita o corpo sobre a rede na casa da praia, que chora de saudade, que se acalma com uma música, a mais esquecida, mais tranquila. Dentro dela não se atende telefone, nem fica sabendo das notícias dos jornais. Não há estreias, só renascimento. As vezes a dama da noite se transforma em uma louca perplexa pela luz do sol e sai a sorrir pela rua como se não existisse ninguém. De tão feliz que é.



E eu, quando criança pensava que o mundo era uma grande carruagem em formato de abóbora. Sonhos não eram sonhos, eram de verdade, e cabia tudo ali dentro. Pensava que príncipes e princesas usavam sempre roupas de gala e não havia gente feia, nem gente suja. Os sapos que ladeavam o lago, eram apenas figuras ilustrativas esperando para serem beijados por inocentes e desprevenidas donzelas que passavam na porta de meu castelo. E eles vinham um a um, entrando pra dentro, à cada vez que se transformavam. Eu nunca imaginei um sótão escuro carregado de criaturas estranhas, pra mim eram apenas as palavras feias que minha mãe tanto se zangava, e eu, as mandava pra lá, como castigo por minha falta de educação. O meu quintal era tão grande que eu colocava nele cavalos alados, e guerreiros com lanças brilhantes que reluziam à luz do sol. Eu via, e eu juro que até ouvia, o rompante de clarins que vinha do alto da torre. Eu me sentava em meu trono, e como um autêntico “Arthur”, comandava meu reinado sorrindo austero, mantendo a ordem diante de meus súditos. Eu cresci, vi que a quando se chega a uma certa idade, as coisas mudam, os castelos caem, a vida se transforma, as criaturas saem novamente do sótão e como fantasmas me perseguem pra onde quer que eu vá. As princesas até existem, mas não beijam sapos. As pessoas perdem o respeito por seus cavalos e eles perdem o encanto. E o meu quintal que era tão grande e cabia tudo isso, hoje, mal consigo dar um passo à frente sem dar de cara com o muro que antes não existia. A vida se resume aos muros quando adulto. Muros que se fecham o tempo todo, para quem ousa sonhar. Criança quando criança não sonha. Ela vive no sonho.


Fernando Oliveira.